Cada um de nós é um mistério à espera de ser
desvelado.
Sim, cremos firmemente que fomos feitos à imagem e
semelhança de Deus Pai Criador, que tivemos restaurada a nossa dignidade de
filhas e filhos de Deus (que o pecado a havia roubado de nós) graças à morte e
ressurreição de Deus Filho feito Homem - Jesus Cristo, Salvador -, e que somos
habitados pelo Espírito Santificador derramado efusivamente em nossos corações
desde o dia do nosso Batismo.
Alcançar pela fé essas verdades espirituais desvelam
parcialmente o mistério que somos nós, pois a espiritualidade é uma dimensão -
certamente importantíssima - entre outras da nossa existência. Também temos,
por exemplo, as dimensões familiar, cultural, social etc que vêm nos
influenciando em maior ou menor escala desde a nossa infância (ou até mesmo
desde a nossa concepção) e têm sido responsáveis por nos tornar o que somos na
atualidade.
Aquilo que sentimos, pensamos, dizemos e fazemos no
tempo presente seguramente é motivado pelas diversas circunstâncias e
acontecimentos do tempo passado. Dos nossos pais e familiares nós herdamos
muito mais que as nossas características exteriores (cor da pele, dos cabelos e
dos olhos etc); muitas vezes também herdamos as nossas características
interiores (personalidade, preferências, resistências etc). A convivência
familiar, a educação recebida dos pais e educadores, as oportunidades
culturais, os afetos recebidos, os limites impostos, as dificuldades
financeiras etc certamente influenciam a vida presente e futura de uma criança.
Muitas pessoas adultas ignoram os motivos que as levam
a sentir, pensar, dizer e fazer as coisas de um determinado modo. Algumas
chegam a imaginar que se comportam de tal maneira porque são livres e decidiram
assim, quando em realidade o seu comportamento foi moldado a partir de
circunstâncias e acontecimentos do passado.
Para desvelar o mistério que somos é indispensável o auto-conhecimento
sincero e sistemático, revisitando o passado, a nossa história de vida,
sobretudo as experiências da vida intra-uterina e da primeira infância. Trazer
estes momentos novamente à mente e ao coração pode ser difícil, doloroso, angustiante,
pois a nossa mente e coração podem estrategicamente ter escondido tais recordações
e vivências para evitar o sofrimento.
Mesmo assim, para que não sejamos mulheres e homens
escravos e completamente dominados pelas emoções e experiências negativas do
passado, é necessário superá-las através da aceitação, do oferecimento do
perdão às pessoas que nos maltrataram, da resignificação dos acontecimentos
para substituir o vitimismo pelo empoderamento.
Esse trabalho interior é processual e doloroso, mas o
seu resultado é libertador e gratificante. Os seus frutos são observados na
vida pessoal, familiar, profissional e até na convivência social.
Muito provavelmente será necessário recorrer a um
profissional da área da Psicologia para acompanhar terapeuticamente este processo,
com seriedade, objetividade e sem pressa.
A espiritualidade, a meditação da Palavra de Deus, os sacramentos e a direção
espiritual podem contribuir poderosamente para que as feridas do passado se
cicatrizem e deixem de ser causa de sofrimento e angústia no tempo presente.














