sábado, 29 de junho de 2019

Autoconhecimento

Cada um de nós é um mistério à espera de ser desvelado.

Sim, cremos firmemente que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus Pai Criador, que tivemos restaurada a nossa dignidade de filhas e filhos de Deus (que o pecado a havia roubado de nós) graças à morte e ressurreição de Deus Filho feito Homem - Jesus Cristo, Salvador -, e que somos habitados pelo Espírito Santificador derramado efusivamente em nossos corações desde o dia do nosso Batismo.

Alcançar pela fé essas verdades espirituais desvelam parcialmente o mistério que somos nós, pois a espiritualidade é uma dimensão - certamente importantíssima - entre outras da nossa existência. Também temos, por exemplo, as dimensões familiar, cultural, social etc que vêm nos influenciando em maior ou menor escala desde a nossa infância (ou até mesmo desde a nossa concepção) e têm sido responsáveis por nos tornar o que somos na atualidade.

Aquilo que sentimos, pensamos, dizemos e fazemos no tempo presente seguramente é motivado pelas diversas circunstâncias e acontecimentos do tempo passado. Dos nossos pais e familiares nós herdamos muito mais que as nossas características exteriores (cor da pele, dos cabelos e dos olhos etc); muitas vezes também herdamos as nossas características interiores (personalidade, preferências, resistências etc). A convivência familiar, a educação recebida dos pais e educadores, as oportunidades culturais, os afetos recebidos, os limites impostos, as dificuldades financeiras etc certamente influenciam a vida presente e futura de uma criança.

Muitas pessoas adultas ignoram os motivos que as levam a sentir, pensar, dizer e fazer as coisas de um determinado modo. Algumas chegam a imaginar que se comportam de tal maneira porque são livres e decidiram assim, quando em realidade o seu comportamento foi moldado a partir de circunstâncias e acontecimentos do passado.

Para desvelar o mistério que somos é indispensável o auto-conhecimento sincero e sistemático, revisitando o passado, a nossa história de vida, sobretudo as experiências da vida intra-uterina e da primeira infância. Trazer estes momentos novamente à mente e ao coração pode ser difícil, doloroso, angustiante, pois a nossa mente e coração podem estrategicamente ter escondido tais recordações e vivências para evitar o sofrimento.

Mesmo assim, para que não sejamos mulheres e homens escravos e completamente dominados pelas emoções e experiências negativas do passado, é necessário superá-las através da aceitação, do oferecimento do perdão às pessoas que nos maltrataram, da resignificação dos acontecimentos para substituir o vitimismo pelo empoderamento.

Esse trabalho interior é processual e doloroso, mas o seu resultado é libertador e gratificante. Os seus frutos são observados na vida pessoal, familiar, profissional e até na convivência social. 

Muito provavelmente será necessário recorrer a um profissional da área da Psicologia para acompanhar terapeuticamente este processo, com seriedade, objetividade e sem pressa.
A espiritualidade, a meditação da Palavra de Deus, os sacramentos e a direção espiritual podem contribuir poderosamente para que as feridas do passado se cicatrizem e deixem de ser causa de sofrimento e angústia no tempo presente.

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