No Brasil - e possivelmente em outros países latinoamericanos - tem ocorrido uma atividade religiosa católica chamada de Cerco de Jericó.
Trata-se de uma atividade que costuma reunir centenas de fiéis nos templos, que acaba tendo um bom retorno econômico de ofertas e doações.
Este texto é um breve comentário de quem presenciou e participou desta atividade em algumas paróquias.
Penso que o Cerco de Jericó é, por um lado, resultado do crescimento do pentecostalismo e do neopentecostalismo na Igreja Católica e, por outro lado, um esforço por trazer de volta à Igreja os católicos que se afastaram.
Como se sabe, muitíssimos católicos são batizados, muitos fazem sua Primeira Confissão e Comunhão, mas poucos são Confirmados e se unem pelo Matrimônio.
Quando se afastam, alguns católicos começam a participar de igrejas pentecostais ou neopentecostais, com cultos marcados pelo som alto das músicas, tocadas em grande quantidade. As pregações apelam ao emocional das pessoas e falam de curas das doenças físicas e psíquicas, em expulsão de demônios, de recebimento de bênçãos e graças para a família, para o trabalho, para a quitação de dívidas, para libertação de vícios em bebidas e drogas etc. Está presente o aparelho de celular, registrando os momentos através de fotos e vídeos, utilizados para divulgar as atividades e convidar para as seguintes na Internet, nas redes sociais.
Supostamente para atrair de volta à Igreja os católicos afastados, o Catolicismo acolheu o pentecostalismo e neopentecostalismo, reproduzindo suas características e adicionando elementos específicos da espiritualidade católica, como a Eucaristia e a intercessão da Virgem Maria e dos anjos e santos.
É nesse contexto que surge o Cerco de Jericó, uma atividade que tem duração de sete noites, onde a santa missa é presidida e, após a comunhão, rezam-se algumas orações diante da Eucaristia exposta no ostensório, suplicando a cura, a libertação, a bênção, a graça de Deus aos participantes. O povo é aspergido com a água benta e o Santíssimo Sacramento sai numa procissão interna pelos corredores da igreja. Sim, reduz-se a iluminação ao estritamente necessário. Estão presentes as velas, o incenso, o turíbulo, os coroinhas. A duração é de 120 a 150 minutos.Durante as setes noites, os participantes são convidados a levar fotografias da família e objetos para serem abençoados (como água, sal, roupas, rosários etc).
A ideia central do Cerco de Jericó - que se inspira na oração de Josué para que caíssem as muralhas da cidade de Jericó (cf. Josué 6, 20) - é que as dificuldades enfrentadas pelos participantes sejam superadas ao término das sete noites de oração.
Participam do Cerco de Jericó pessoas de bairros e cidades vizinhos. Há pessoas que, durante o ano, vão ao Cerco de Jericó em diversas paróquias, porque gostam do estilo da atividade. Muitos participam sozinhos, mas alguns levam a família inteira.
Neste sentido, o Cerco de Jericó se assemelha às novenas rezadas pelos católicos e dedicadas aos santos de devoção, a fim de se alcançar bênçãos e graças.
O Cerco de Jericó ocupa um lugar importante na agenda paroquial, como a Semana Santa, a festa do padroeiro da paróquia etc. É feito um grande investimento econômico em flores, velas etc. Paga-se estipêndio para sacerdotes convidados de outras cidades, paga-se pelos ministérios de música. Envolve-se toda a liderança leiga da paróquia. Aproveita-se para vender comida e bebida em cantinas. Vendem-se velas, água e objetos religiosos. Há lugares onde se confeccionam camisetas específicas para cada Cerco de Jericó.
A pergunta é: o Cerco de Jericó é eficiente? Ou seja, os católicos afastados voltam à Igreja?
A resposta é: são poucos os católicos que realmente voltam. Eles se acostumam com o estilo pentecostal e neopentecostal do Cerco de Jericó e não o encontram nas missas dominicais. E isso desmotiva a participação deles.
Chama a atenção o silêncio dos bispos e o interesse dos padres mais jovens. Há uma série de "excessos litúrgicos" cometidos pelos padres e, como não são corrigidos pelos bispos, deixam-se levar pela vaidade religiosa, pela superficialidade, com pregações moralistas e pouco comprometidas com os projetos pastorais da diocese e com a transformação social.
Há diversos livros que ensinam como realizar o Cerco de Jericó, mas poucos que refletem sobre a pertinência da atividade na Igreja Católica.