Antes de tudo, é
preciso distinguir “falar mal” de “discutir ideias”. Enquanto, no primeiro
caso, o foco é uma pessoa concreta e está completamente ausente a intenção de
contribuir com o seu crescimento (já que, na maioria das vezes, o objetivo é
desprestigiá-la e desautorizá-la, mesmo que os argumentos sejam frágeis ou
insuficientes), no segundo caso, o foco são as ideias e as atitudes concretas
de uma pessoa (bem como as suas conseqüências práticas na vida cotidiana) e
está inteiramente presente o compromisso de ajudar no seu aperfeiçoamento
(reunindo argumentos fortes e suficientes, apresentados de modo respeitoso, sem
afetar negativamente a imagem pessoal e institucional).
Para emitir uma opinião
sobre uma pessoa, é muito importante - para fazê-lo de modo maduro e cristão -,
em primeiro lugar, nos auto-examinar para descobrir quais são as nossas reais
motivações e se conhecemos suficientemente as razões e fundamentos que levam
tal pessoa a agir e se expressar de determinada forma. Caso contrário,
arriscamo-nos a “falar mal” por inveja, por ciúmes, por ignorância e, mais
tarde, podemos merecer e receber duras críticas.
Cada pessoa é única;
ninguém é igual a ninguém. Somos verdadeiramente livres para ser quem somos,
com nossas qualidades e defeitos. Em cada pessoa se manifestam as
possibilidades e virtudes de toda a humanidade, e também as suas limitações e
vícios. Ser cristão não nos blinda nem impede que sejamos plenamente humanos. É
verdade que a Graça de Deus, durante toda a nossa existência, com o nosso
consentimento e participação ativa, vai-nos transformando à imagem de Jesus
Cristo, pelo Espírito Santo. Mas alguns traços incômodos da nossa condição de
pecadores insistem em permanecer e só vão ser plenamente transformados na
manifestação gloriosa de Jesus Cristo com a instauração definitiva do Reino de
Deus.
Nestes dois milênios de
história da Igreja, “discutir ideias e atitudes” de papas tem sido uma prática
muito comum. Mas, infelizmente, também não faltaram pessoas para “falar mal” da
pessoa deles. Fiéis de todas as condições (cardeais, bispos, presbíteros, diáconos,
religiosos e leigos) se prestaram às duas práticas. A grande maioria era de
intelectuais (doutores e mestres em Teologia e Filosofia), mas também procediam
de autoridades eclesiásticas, de santas e santos da Igreja e fiéis leigas e
leigos pouco conhecidos.
Vale recordar que o
próprio Filho de Deus feito Homem recebeu duras críticas injustas tanto das
autoridades religiosas dos judeus quanto das autoridades políticas dos
dominadores romanos. Essa prática foi comum entre os profetas, no Primeiro
Testamento, e também com os apóstolos, no Segundo Testamento.
O papa Francisco recebe
muitas críticas de fiéis que consideram ilegítima a sua eleição pelos cardeais
votantes no conclave que ocorreu no Estado do Vaticano, em março do ano 2013,
após a renúncia do Bento XVI que, desde então, tornou-se papa emérito. Tais
fiéis não reconhecem o resultado deste conclave e afirmam que Bento XVI é o
verdadeiro papa, e que Francisco não tem legitimidade. O modo de exercer o
pontificado de ambos é evidentemente distinto; enquanto Bento XVI foi por muito
tempo uma autoridade intelectual e eclesiástica, ao estilo alemão e europeu,
Francisco tem características mais pastorais e sociais, ao estilo argentino e
latino-americano.
Fiéis pouco
conhecedores da Doutrina Social da Igreja costumam atribuir a sensibilidade
social de Francisco (que se expressa de modo oral, por escrito e por gestos
públicos) às correntes filosófico-sociológicas comunistas-socialistas. É
sumamente recomendável que tais fiéis, antes de “falar mal” de Francisco,
conheçam ou aprofundem o ensinamento social da Igreja, totalmente baseada nas
Sagradas Escrituras e na Tradição dos primeiros séculos do Cristianismo.
Também há fiéis que
interpretam as atitudes de misericórdia de Francisco com os casais em segunda
união (casados apenas pelo civil, sem o sacramento do Matrimônio), com os
homossexuais, com os migrantes, com os moradores de rua, entre outros, como
incoerentes com os ensinamentos de Jesus Cristo, confundindo os demais fiéis.
Francisco é acusado de herege, de pouco ortodoxo.
Muitos líderes
políticos internacionais, de tendência conservadora e direitista, têm-se unido
para desprestigiar e desautorizar Francisco através da realização de eventos,
de entrevistas e da publicação de artigos.
Agora que estamos
praticamente às vésperas do próximo sínodo da Igreja, que será sobre o
importante e imenso território da Amazônia, muitos líderes têm intensificado a
suas duras e injustas críticas a Francisco, pois os interesses sociais e
econômicos dos governos nacionais têm uma agenda diametralmente oposta à
Doutrina Social da Igreja.
Considerando os
ensinamentos de Francisco na sua encíclica “Laudato si’” (sobre os cuidados da
casa comum), de maio de 2015, já podemos esperar todas as duras críticas que
lhe serão dirigidas.
Rezemos por Francisco,
nosso legítimo e querido papa. Conheçamos melhor a história e o coração
misericordioso desse servo que Deus nos dá para conduzir a Igreja como pastor
das ovelhas.

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