terça-feira, 30 de abril de 2019

Polarização ideológica

O famoso direito à “liberdade de expressão” é proporcional ao [quase sempre esquecido] dever do respeito a quem pensa ou age de um jeito diferente do nosso.

Os direitos e os deveres dos cidadãos estão literalmente declarados nas constituições dos países. Segundo uma das máximas das ciências jurídicas, “o que não está expressamente proibido, é permitido”.

Assim como é legítimo que uma pessoa tenha uma visão de mundo e de ser humano, baseadas ou não em propostas religiosas ou políticas, é igualmente legítimo que alguém tenha as suas próprias convicções, desde que elas não contradigam os direitos e deveres comuns aos cidadãos, expressos nas constituições nacionais.

Há até algum tempo - sobretudo antes da proliferação dos dispositivos eletrônicos e a popularização das redes sociais -, as pessoas geralmente guardavam para si mesmas as próprias convicções, partilhando no máximo com a família, os amigos, os companheiros de trabalho. Pensamentos preconceituosos não eram manifestos publicamente, ao menos não de modo direto.

Na atualidade, muitas mulheres e homens, sem qualquer constrangimento, falam abertamente contra as mulheres, os negros, os indígenas, os homossexuais, os pobres etc. O que começa na Internet chega às casas, às esquinas das ruas e avenidas, aos bares e centros comerciais, e até mesmo nas comunidades da Igreja, tentando justificar o que é injustificável desde um ponto de vista humanista e cristão. Muitas vezes falsas notícias (“fake news”) são inventadas para defender verdadeiros absurdos.

A dignidade do ser humano fica seriamente danificada por causa de comentários carregados de um ódio e desprezo desproporcionais. Quem pensa e age de um modo diferente é visto como um inimigo que precisa ser eliminado com urgência, custe o que custar. Antes havia sutileza, bons modos, diálogo; hoje as pessoas são agredidas verbal, virtual e fisicamente. As minorias sociais chegam a ter medo de sair e de se expor em público, preocupadas com a violência, com a integridade do seu corpo.

Existe um interesse por “conquistar novos adeptos” para a ideologia defendida, para combater as ideias contrárias. De um modo ingênuo e simplista, enquanto pessoas são “endeusadas”, outras são “satanizadas”.

Deixando-se levar pelo radicalismo, pelo fanatismo, dividem-se esposos e esposas, pais e filhos, amigas e amigos, irmãs e irmãos de comunidade. A sociedade se encontra profundamente dividida; muros se levantam.

Sem negar os ensinamentos de Jesus Cristo e da Sua Igreja, nós cristãos precisamos fazer a diferença na sociedade, conscientes da profunda polarização ideológica nos nossos dias. Não podemos entrar nesse jogo, nessa dinâmica. Em vez de contribuir para que os muros de divisão se multipliquem, precisamos construir pontes entre as pessoas e os grupos que pensam e agem de distintos modos.

Livremos as nossas famílias, as nossas amizades, as nossas comunidades, a nossa sociedade, as nossas redes sociais de pessoas agressivas (“haters”) que, de um modo mais ou menos consciente, estão a serviço daquele que é o pai da divisão e que se alegra semeando o ódio e a mentira. Como Jesus, respeitemos todas as pessoas.


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