A famosa narrativa da travessia dos hebreus pelo Mar Vermelho, liderados por Moisés, fugindo do faraó egípcio e do seu exército, deixando a escravidão rumo à terra prometida, graças a uma intervenção direta de Deus, revelado como “Aquele que sou” àquele que tinha sido “salvo das águas”, é, sem dúvidas, uma das mais fundamentais bases da fé judaica. Antes mesmo de acreditar em Deus como Criador, os judeus já tinham adquirido a crença em Deus como Libertador.
A travessia dos hebreus pelo Mar Vermelho inspirou e continua inspirando diversas mulheres e homens que professam a fé dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó-Israel, como também os cristãos e os muçulmanos, que historicamente procedem do Judaísmo e conservam os seus textos sagrados.
Tal narrativa é particularmente meditada por ocasião da festa judaica anual da Páscoa, celebrada na primeira lua cheia da primavera, no hemisfério norte (outono, no hemisfério sul). Recordando que foram escravos e depois libertos, no passado, os judeus encontram forças para se libertarem de tudo aquilo que busca lhes escravizar, no presente, e alimentam a fé na libertação definitiva de toda e qualquer escravidão, no futuro.
Para os cristãos, a travessia do Mar Vermelho é uma imagem provisória da plena libertação operada por Jesus Cristo, pela Sua morte vergonhosa na Cruz e ressurreição gloriosa. Conscientes da sua escravidão ao pecado, os cristãos, atravessando as águas pelo sacramento do Batismo, são conduzidos à plenitude da liberdade das filhas e filhos de Deus. Essa é a Páscoa cristã.
Por se tratar de um texto sagrado tão importante, é preciso comentá-lo de um modo muito respeitoso, ainda que à luz da atual crítica histórica.
Segundo os historiadores, a famosa narrativa pertence ao período em que os egípcios já não dispunham do controle absoluto sobre os escravos hebreus e que, por tal razão, houve diversos êxodos, diversas fugas. O grupo liderado por Moisés - possivelmente pouco numeroso para não chamar tanto a atenção dos egípcios - foi um entre outros. Os hebreus fugitivos partilhavam informações sobre os melhores caminhos e momentos para a fuga, ajudando-se mutuamente. Provavelmente soldados egípcios perseguiam os fugitivos; mas seguramente não era um exército inteiro. Sem dispor das informações partilhadas sobre caminhos e momentos, os soldados egípcios já não puderam avançar depois que os fugitivos atravessaram o Mar Vermelho - certamente molhando, não somente os pés, mas o corpo completo.
Então seria uma mentira tal narrativa? Vamos com calma. A História é uma ciência moderna, comprometida com a reconstrução de eventos passados a partir de informações objetivas, livre de interpretações subjetivas. A narrativa da travessia dos hebreus pelo Mar Vermelho a pé enxuto foi contada de geração em geração, primeiro de modo oral e depois por escrito, a fim de despertar e sustentar a fé nos ouvintes e leitores judeus, para que experimentassem, individual e coletivamente, a presença do Deus Libertador, que ontem, hoje e sempre acompanha o Seu povo, com fidelidade.
Por isso é tão importante o estudo das Sagradas Escrituras, a fim de que, aos poucos, os cristãos possam ir superando a leitura ingênua e fundamentalista dos textos sagrados e, sem medo, aplicar sobre eles a preciosa contribuição da atual crítica histórica, de modo respeitoso.

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