sábado, 27 de abril de 2019

A Bíblia e os católicos

Utiliza-se a palavra “protestante” para identificar um grupo bastante numeroso e diversificado de cristãos que se congregam fora do Catolicismo, surgidos após a Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero - um ex-monge agostiniano - na Alemanha do século XVI, que foi inspirando o surgimento de diversas igrejas, que foram se espalhando, primeiro pela própria Europa, depois pela América e, finalmente, pelo mundo afora.

As igrejas mais antigas formam o chamado “Protestantismo histórico” (igrejas luterana, anglicana, presbiteriana etc). As igrejas fundadas entre o final do século XIX e início do século XX pertencem ao chamado “Protestantismo pentecostal” (igrejas Deus é amor, congregação cristã, assembleia de Deus etc). E o “Protestantismo neo-pentecostal” reúne as igrejas foram surgindo nas últimas décadas (igrejas universal do Reino de Deus, internacional da Graça de Deus, mundial do poder de Deus etc).

Os “protestantes”, em geral, seguem a inspiração de Martinho Lutero de que a Bíblia é a base fundamental do Cristianismo, que não deve ser substituída por tradições, doutrinas ou interpretações. Recordamos que, segundo o Catolicismo, além da Bíblia, a Tradição dos primeiros séculos do Cristianismo e os ensinamentos dados pela Hierarquia da Igreja (papa e o Colégio Episcopal) formam a base da fé cristã católica apostólica romana.

Além disso, os “protestantes” pentecostais e neo-pentecostais acreditam piamente que o Espírito Santo, pela oração, explica aos leitores e ouvintes da Bíblia os mistérios da fé cristã, sem a necessidade de conhecer e estudar os grandes teólogos e comentaristas da Bíblia. Por tal razão, a formação teológica e bíblica de um líder religioso nestas igrejas é curta e rápida, em comparação aos ministros ordenados do Catolicismo, cuja formação acadêmica e universitária (Filosofia e Teologia) dura, no mínimo, sete anos.

No “Protestantismo histórico” é diferente. A formação teológica e bíblica dos seus lideres religiosos é bastante séria e completa, ainda que divirjam em alguns pontos do Catolicismo. Foram eles que traduziram a Bíblia para os mais diversos idiomas, enquanto no Catolicismo mantinha a tradução em latim, desconhecido para a maioria dos fiéis, exceto os ministros ordenados e os membros da Vida Religiosa.

Devido à grande preparação dos “protestantes históricos”, na formação teológica e bíblica dos ministros ordenados são utilizados livros escritos por eles e alguns inclusive são professores em universidades e institutos católicos, ensinando os pontos convergentes da fé cristã tanto para católicos quanto para não católicos.

Preocupados com a possibilidade de que os católicos, ao lerem a Bíblia, não compreendessem a sua mensagem e a ensinassem equivocadamente, a Hierarquia da Igreja oferecia aos fiéis a síntese da fé cristã na forma de Catecismo em preparação aos sacramentos e de homilias durante a Eucaristia.

Os católicos só passaram a ter acesso à Bíblia para leitura no próprio idioma e o seu estudo a partir de 1965, com o Concílio Ecumênico Vaticano II, ou seja, tardiamente.

A multiplicação das tradições e devoções populares católicas, de alguma maneira, ocupou o lugar da leitura, meditação e estudo da Bíblia por parte dos católicos. Muitos fiéis nem mesmo possuem o livro sagrado; e muitos que têm a Bíblia pouco ou nada a conhecem e utilizam. Há pessoas que fazem do livro sagrado um objeto para enfeitar o ambiente ou a utilizam de modo supersticioso, para proteção ou para prever acontecimentos.

Os “protestantes”, com a sua metodologia de exigir dos seus fiéis a leitura da Bíblia e que a levem nos seus cultos e celebrações, recitando e memorizando versículos importantes a fim de repeti-los às pessoas em momentos de tristeza, angústia, doença ou dificuldades, ajuda-lhes muito a conhecer e utilizar a Bíblia.

Há pastorais e movimentos no Catolicismo cujos ministros ordenados e não ordenados valorizam e fazem uso do livro sagrado, preparando-lhes para evangelizar a partir da Bíblia, bem compreendida com a ajuda da Tradição da Igreja e os ensinamentos da sua Hierarquia. O exemplo destas pastorais e movimentos deveria inspirar os demais a fazer o mesmo.

Muitos católicos, para justificar a sua falta de interesse ou disposição para ler, meditar e estudar a Bíblia, acusam os “protestantes” de memorizar e recitar versículos da Bíblia com uma compreensão superficial e limitada do livro sagrado; até mesmo sem cumprirem o que ensinam. Vale lembrar que o Catolicismo também possui muitos fiéis que pouco ou nada entendem sobre a Bíblia e que também evangelizam sem praticar os seus ensinamentos.


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