Pra começo de conversa, não estamos falando de mendigos, de miseráveis.
Continuando: ninguém gosta de ser associado à palavra "pobre". Ninguém quer ser "pobre". É quase ofensivo, um xingamento.
Mas quem é o pobre? É o trabalhador assalariado, é o desempregado assistido por programas sociais, é o que trabalha por conta própria, como os trabalhadores de aplicativos.
Mora de aluguel ou está pagando pelo apartamento ou casa em diversas prestações. Tem bicicleta, um carro ou moto velha ou paga prestações de um veículo novo. Anda de ônibus ou de UBER. Pode ser um estrangeiro.
Como feijão com arroz e ovos durante a semana e, no domingo, um frango assado, ou talvez um churrasco de carne de segunda com cerveja barata, ou pede uma pizza com refrigerante.
Tem pouca escolaridade, um celular com a tela arranhada, viaja pouco, compra calçado e roupa na promoção, paga com cartão de débito ou faz PIX.
O pobre se considera da classe média. Mas as pessoas dessa classe econômica e social têm três ou mais casas ou apartamentos próprios, têm três ou mais veículos bons, viajam várias vezes ao ano, têm diversas roupas e calçados e acessórios da moda, concluíram faculdades e mestrados, têm seu próprio negócio com funcionários, têm cartões de crédito, frequentam restaurantes caros.
No passado, os pobres exigiam leis que garantissem salário justo, boas condições de trabalho, descanso remunerado um dia por semana e um mês por ano, um contrato fixo de trabalho.
Exigiam dos políticos boas escolas, bons professores, bons hospitais, bons médicos, bons ônibus, boas rodovias etc.
Mas, hoje, o pobre acha que as leis atuais e que o Governo atrapalham. Acha que as leis o impedem de empreender livremente. Ele não quer saber de direitos trabalhistas, que o protegem de se tornar um escravo do trabalho.
Ele acha que o Governo cobra impostos demais e gasta muito com programas sociais. Ele não quer saber de redistribuição de renda, que favorece as pessoas em pobreza extrema, com fome.
Anteriormente, os pobres acolhiam os estrangeiros e os ajudavam a se integrar na sociedade. Mas, hoje, os pobres querem que os estrangeiros sejam deportados a seus países de origem, porque eles tiram seus direitos e trabalhos e ameaçam a paz social.
Os pobres mudaram seu jeito de pensar, sua forma de agir. Como dialogar com eles? Como convencê-los de novo sobre a importância das leis trabalhistas e dos programas sociais, que um dia tanto os ajudaram? Como convencê-los de que não são da classe média, mas que são pobres, sem que isso soe ofensivo? Como ajudar os pobres para que voltem a ser acolhedores com os estrangeiros?
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