- Eu sou um homem no corpo de uma mulher.
- Por favor, explique-se melhor.
- Houve um erro: nasci com o corpo de mulher mas com alma de homem. Desde criança, nunca me identifiquei como mulher.
- Se houve um erro então quem errou?
- Sei lá: Deus, a natureza, o universo... Quem saberá? Só sei que eu quero corrigir esse erro. Eu preciso corrigí-lo para ser feliz.
- Desde quando você pensa assim?
- Há uns anos ouvi essa explicação e me identifiquei com ela. Tomei-a como minha.
- Sei. Você tem dezenove anos, né?
- Sim, quase vinte anos já.
- Seus pais, sua família, o que dizem? Seus amigos...
- Meus pais detestaram a ideia. Minha família em geral. São bem tradicionais, uma família cristã. Muitas pessoas que se diziam minhas amigas se afastaram de mim. Sou uma aberração para eles.
- Quando "corrigir o erro", você vai ser feliz?
- Sim. Até hoje eu não experimentei a felicidade. Quero que a imagem no espelho reflita quem eu sou de verdade.
- Você tem tanta certeza de que isso vai acontecer! E se não acontecer?
- Não parei para pensar sobre isso.
- Vai mudar seu nome também, né?
- Sim. Deixarei de ser Mônica e serei Eduardo.
- Assim você vai conquistar o respeito das pessoas?
- Sinceramente? Isso não me importa. Chega de pensar nos outros, de agradar os outros. Agora é a minha vez!
- E Deus? O que você acha que Ele pensa sobre isso?
- Deus me ama. Ele quer a minha felicidade e respeita a minha decisão.
- Entendi. Obrigado pela conversa.
- Não há de quê.
- Deus erra? A natureza erra? O universo erra?
- Em nome da liberdade, da felicidade, o ser humano tudo pode? O biológico determina tudo?
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