segunda-feira, 22 de maio de 2023

Lição de casa

- Vovô, o senhor me ajuda na lição de casa?

- Vixi, o vovô é péssimo pra essas coisas...

- É sobre a pandemia de COVID-19...

- O que você quer saber?

- Aqui diz assim: entrevistar uma pessoa que viveu na época da COVID-19 e saber como ela passou pela pandemia.

- Tá bom. Venha aqui. Na época o vovô tinha uns trinta e poucos anos...

- Foi em 2020, né? 

- Isso. Sua mãe devia ter uns dez, doze anos.

- Vocês moravam na casa da bisa, né?

- Sim. A bisa morreu de COVID-19. Então, Judite, tudo foi muito rápido. A doença causada pelo vírus veio da China e logo se esparramou pelos países. Todo mundo achava que seria só uma gripe forte e que iria durar umas semanas.

- Mas foi mais grave, né, vovô? E durou mais tempo.

- Sim, muita gente morreu de pneumonia: idosos, jovens, crianças, pobres, ricos, desconhecidos, famosos... E a pior fase durou um ano e meio, mais ou menos.

- E como era a vida, vovô?

- A gente não podia sair de casa. Ficávamos de quarentena. Saíamos pra ir no mercado, na farmácia, e só. Tinha que usar máscara e álcool em gel. E, ao voltar pra casa, tínhamos que desinfetar os sapatos, as sacolas de compras, tomar banho e lavar as roupas...

- Tudo isso, vovô? 

- Sim, as pessoas ficaram neuróticas, com muito medo, porque no começo não tinha vacina.

- Entendi.

- Muitas pessoas ficaram sem dinheiro, desempregadas. As aulas e o trabalho eram on-line. Muitos comércios faliram. O governo teve que ajudar os pobres dando-lhes dinheiro. 

- E depois da vacina?

- Muita gente não quis se vacinar. Tinham medo porque era uma vacina nova e alguns tiveram reações graves à vacina.

- É verdade que morreu tanta gente que faltava lugar no cemitério? 

- Em alguns lugares, sim, Judite. A gente assistia nos noticiários. Mas depois deixamos de ver porque nos dava muita tristeza e medo.

- Que horror, vovô. 

- Sim. E as pessoas que morriam de COVID-19 não podiam ser veladas. O corpo era colocado no caixão e logo enterrado, sem que a família e amigos pudessem se despedir.

- Foi assim com a bisa, né, vovô? 

- Sim. A bisa tinha uns setenta anos. Ela ficou doente, nós a levamos no hospital, ela ficou internada por três dias, os médicos a entubaram, e ela então morreu.

- A mamãe me disse que vocês nem puderam se despedir da bisa...

- Foi o momento mais triste que eu vivi neste mundo.

- Vovô, é verdade que tinha gente que não usava máscara, se reunía pra fazer festas, levando o vírus pra própria família? 

- Infelizmente é verdade, Judite. Chegou uma hora que as pessoas já estavam tão cansadas de ficar em casa, que acabaram cometendo essas loucuras.

- Até as Igrejas ficaram fechadas, né, vovô? 

- Até as Igrejas. As missas eram transmitidas pela TV, pela rádio, pelas redes sociais.

- As pessoas se voltaram mais pra Deus, vovô? 

- Nem tanto, Judite. Algumas, sim, mas outras continuaram egoístas e indiferentes.

- Tinha gente que ajudava os mais pobres, né? 

- Sim, preparavam e distribuíam comida. Recolhiam alimentos e entregavam cestas básicas.

- Vovô, será que a humanidade saiu melhor da pandemia?

- Judite, as pessoas têm a memória curta e o coração muito fechado. Penso que a pandemia pôs em evidência o que cada um era: quem era bom mostrou sua bondade, e quem não era mostrou seu egoísmo.

- Que Deus nos livre de outra pandemia, né, vovô?

- Deus a ouça, Judite. Deus a ouça.

 

- Como você vai contar sobre a pandemia de COVID-19 às próximas gerações? 

- A sua memória é curta?

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