quinta-feira, 18 de abril de 2019

O “lava-pés” foi um acontecimento histórico?

As Sagradas Escrituras têm por objetivo despertar e sustentar a fé das mulheres e homens. Ainda que alguns de seus livros se dediquem a contar alguns acontecimentos, identificando pessoas, lugares e tempos que se podem confirmar com dados históricos - por exemplo, o livro dos Juízes, os livros de Samuel, os livros dos Reis -, o seu modo de entender e narrar os acontecimentos está profundamente marcado pela fé, interpretando os tempos de prosperidade como recompensas de Deus pela fidelidade do Seu povo e os tempos de guerra e fome como castigos divinos pela sua desobediência e práticas idolátricas. 
Essa maneira de “fazer história” - presente tanto no Primeiro quanto no Segundo Testamentos - não é compatível com a História, essa ciência rigorosa que surgiu na Modernidade, a partir do século XV, comprometida em contar os acontecimentos passados apoiada unicamente nos dados objetivos, livre de intenções subjetivas, mesmo que sejam nobres motivações religiosas.
Os judeus tinham o tradicional costume da hospitalidade, acolhendo bem as pessoas quando recebiam visitas em suas casas. Parte desta acolhida consistia em lavar os pés dos visitantes, já que a terra e o pó eram freqüentes pelos caminhos não pavimentados. Este humilde serviço era realizado, não pelos anfitriões, mas pelos seus servos ou escravos.
Narrando a Última Ceia de Jesus com os Seus apóstolos, o evangelista João descreve uma cena em que o Mestre, sem discursos, apenas com o Seu exemplo, ensina aos Seus discípulos sobre o serviço humilde que deve identificar os Seus seguidores, lavando os pés deles, assumindo o papel de servo, de escravo (13, 1-15). Esse gesto tão simples manifesta o que foi a completa vida de Jesus: um incessante serviço humilde e desinteressado aos demais - exemplo a ser imitado.
Chama muito a atenção que os demais evangelistas (Marcos, Mateus e Lucas), como também o apóstolo Paulo em suas cartas, ignorem completamente este episódio tão significativo supostamente realizado durante a Última Ceia. E conste que estes evangelistas e este apóstolo são minuciosos e detalhistas ao narrar detalhes sobre a instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial.
De fato, no contexto da Última Ceia, o evangelista João não fala nada sobre pão e vinho nem sobre Corpo e Sangue. Este assunto foi amplamente tratado, mas apenas no famoso capítulo seis (conhecido como o “Discurso sobre o Pão da Vida”), não durante a Última Ceia.

Esta constatação autoriza os biblistas e teólogos a pensarem que, mais que um acontecimento histórico, o “lava-pés” é um recurso narrativo utilizado pelo evangelista João para aprofundar com os seus leitores e ouvintes o importante tema cristão do serviço humilde e desinteressado, que resume tão perfeitamente a vida e os ensinamentos de Jesus Cristo, e é deixado como distintivo para que sejam identificados aqueles que n’Ele crêem.


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