- Tenho observado o senhor aí deitado no chão o dia inteiro...
- Pois é...
- Por que o senhor fica assim?
- Não tenho motivação pra me levantar. Ninguém se importa comigo. Não tenho nada pra fazer, nada pra comer. Assim deitado, não gasto energia. Tenho um pouco de fraqueza, de tontura. Ontem não comi, só bebi.
- Entendi. O que o senhor faz pra comer?
- De noite sempre vem gente trazer marmita pra nós.
- É a sua única refeição do dia?
- Praticamente.
- O senhor tem família, tem alguma profissão?
- Eu larguei a minha família. Só dei vergonha pra eles. Fui ajudante de pedreiro, mas deixei de trabalhar por causa da bebida, dos vícios.
- O senhor quer sair dessa vida? Posso ajudar o senhor.
- Não tenho pra quem voltar, pra onde voltar. Gosto da rua, da liberdade. Já me acostumei a viver assim.
- O que posso fazer pelo senhor?
- Se quiser, aceito uns trocados.
- Mas vai usar pros vícios?
- Provavelmente, não vou mentir.
- Então não vou dar dinheiro, não. Quando quiser ajuda pra sair dos vícios, o senhor pode contar comigo.
- Tá bom. Vou continuar aqui deitado então.
- Por que os moradores de rua não querem sair dessa situação?
- Ao dar comida aos moradores de rua, nós estamos os ajudando ou os atrapalhando?
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